Era tão lindo o canto da Cigarra pela tarde, que embalando o bosque numa cadência suave, tornava agradável até mesmo o árduo trabalho das formigas, suas maiores fãs e admiradoras, senão por uma, que por um incômodo qualquer de inveja, ou pela percepção de uma ameaça ao seu modo de vida e de toda colméia, criava em si sentimentos de aversão contra a Cigarra e o seu cantar.
Um fato interessante a ser observado, é o de que todas as formigas trazem em si, arraigados e compartilhados entre sua sociedade, os ideais de austeridade, racionalidade, responsabilidade e trabalho duro, o que torna especialmente interessante o fato de apenas a protagonista da estória ter desenvolvido sentimentos hostis contra a Cigarra e seu comportamento despreocupado, que representa a anarquia e a total destruição da sociedade num ponto de vista fórmico.
E como na época os animais falavam, cantavam e até inauguravam as primeiras emissoras de televisão, e como já existiam leis e um princípio de moral que tornasse inviável uma denúncia que levasse a cigarra à cadeia por subversão (estavam numa monarquia liberal), a Formiga, que temia a influência da cigarra sobre o formigueiro e, sinceramente queria vê-la longe das farras, do álcool e das serestas, passou a usar métodos mais sutis de persuasão, como insultos indiretos e terror psicológico (táticas posteriormente adotadas em propagandas e mensagens religiosas), tentando durante todo o verão e metade do outono, sem sucesso, levar a Cigarra para uma vida de carteira assinada, família e previdência privada.
E na noite mais fria do mais frio inverno, de dentro de seu pequeno apartamento, a formiga tenta se conformar de tudo que precisou abdicar. De todos os seus sacrifícios em prol de uma causa maior: Filhos na garagem; carro formado; mulher dedicada... E não sabe se é real ou se é apenas a melancolia que chega com o frio, mas sente que algo não está certo. Pensa se realmente tudo valeu a pena, e se não seria o caminho da cigarra o correto, ou pelo menos o mais feliz. Até que subitamente, no meio de tantas reflexões, é tomada por um sentimento de alegria. Ou mais: De euforia e de vingança (e preste atenção, porque é a este ponto que o recalque nos leva) pensando no terrível destino da Cigarra, à mercê do inverno e da fome. Tomou consciência do autossacrifício necessário e concluiu para si mesma que sim, que valeu a pena.
Porém, o que mal sabia a Psicologicamente Perturbada Formiga, era que a essa altura, a Cigarra estava muito longe dali: Tivera seu talento finalmente reconhecido por um famoso empresário e partira em sua primeira de muitas turnês pela Europa, sendo idolatrada por milhares de fãs, conhecendo e se relacionando com figurões de todas as partes, ganhando fortunas e frequentando festas da alta sociedade, onde comia foie gras e bebia champanhe de verdade, tendo vivido a partir de então uma verdadeira fábula.
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