Era inegavelmente belo o canto daquela Cigarra. E seria muito agradável para a Formiga, que a ouvia todas as tardes enquanto trabalhava, se não lhe causasse um certo incômodo (e inveja) o estilo de vida de sua cantante companheira artrópode.
O fato é que a Formiga que sempre fora muito racional, honesta e trabalhadora- sentia que seus ideais de previdência e austeridade, muito bem vistos pela sociedade, eram ameaçados pela atitude despreocupada da Cigarra.
E como a Formiga não tinha muita criatividade nem coragem para pensar por si própria ou questionar seu comportamento dentro do sistema, exerceu seu papel de agente mantenedor da norma social e passou a aconselhar a Cigarra, por meio de insultos sutis e terrorismo psicológico (exatamente como qualquer propaganda ou mensagem edificante), para que ela tomasse jeito na vida e trabalhasse, se tornasse uma pessoa de bem. E também que poupasse, constituísse uma família saudável e adquirisse um plano de previdência privada.
De nada adiantava: Foi-se a primavera, passou o verão, chegou o outono. A Cigarra sempre cantando, se divertindo, compondo, bebendo, frequentando as altas rodas da malandragem e a vida boêmia da cidade. Sempre sorrindo. Vivendo cada dia como se fosse o último. Nunca se preocupando com o amanhã.
E na noite mais fria do mais frio inverno, a formiga sente um incômodo e pensa na vida. Pensa no que perdeu por ser tão correta. Se eforça para se afirmar e se compraz de suas conquistas - seus filhos já encaminhados, sua esposa atenciosa, um apartamento quitado, um carro na garagem, assinatura da NET (o mundo é dos nets) - e sorri quase feliz da sua vida tão ordinária, confortando-se por ter conseguido vencer, mesmo que para isso tenha tido que abdicar de seus sonhos e de sua liberdade.
Sentiu-se melhor ainda, ou melhor que melhor: Sentiu-se feliz e vingada - pois é a esse ponto que o recalque nos leva - ao pensar em todo o sofrimento que sua companheira Cigarra estava passando na fome e no frio, apenas por não ter adotado um modo de vida normal e por não lhe dar ouvidos.
Entretanto, o que a responsável e psicologicamente perturbada Formiga não sabia, era que antes de começarem a cair os primeiros flocos de neve, a Cigarra teve seu talento reconhecido por um famoso empresário e iniciou uma turnê pela Europa, onde teve várias amantes, ganhou fortunas, comprou mansões e frequentou fabulosas festas onde comia petit gateau, gruyere, foie gras e bebia champanhe de verdade de mil e duzentos dinheiros a garrafa.
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Formigarra ou Cigamiga?
ResponderExcluirCaro amigo Elton,
Adorável ser cigarra...Confortável ser formiga...Por que não ser uma formigarra ou talvez cigamiga? Acho que a mistura, em tudo o que fazemos, é a postura ideal. É possível ter liberdade e alcançar ideais com uma certa dose de preocupação, porque intempéries acontecem. Triste é não ser feliz...E onde está a fórmula? Simplesmente não existe! Para muitos a felicidade está em ser previsível e para outros, em ser novo a cada dia.
Bjs, Tonton! Adoro você!
Aninha
Oh, Aninha... Aninha... Sempre um oásis de bom senso no meu deserto abarrotado de opções e incertezas!
ResponderExcluirUns beijos